Assim falava Zaratustra, a principal obra do filósofo alemão Friedrich Nietzsche; ela é encontrada em livrarias, bibliotecas, atualmente até em bancas de jornal, e também nas mochilas de boa parte dos antigos soldados nazistas. Essa obra era uma leitura obrigatória para os nazistas e um elemento básico que reforçava os nortes ideológicos do Nazismo; mas nos deixa a questão: qual a verdadeira posição de Nietzsche em relação ao Nazismo?
Sem dúvida, Nietzsche foi um dos filósofos mais polêmicos da história, não somente pela sua crítica sangrenta às religiões – mais especificamente ao cristianismo – mas também pelas suas fortes influencias na ideologia dos regimes totalitários. Nietzsche foi profundamente influenciado por movimentos “racistas” de sua época, como o darwinismo social; sua filosofia está fincada na proclamação de um ser que superasse os limites humanos, o
Übermensch (super-homem). Para se chegar a tal ser, a humanidade deveria ser submetida a uma espécie de “seleção”, que naturalmente extinguiria os mais fracos, sobrevivendo os mais fortes dos homens, dando origem a uma nova era, com novos valores. Mas mesmo tomando partido dos pensamentos nietzschianos, sua verdadeira posição diante do Nazismo é um tanto duvidosa.
O chanceler Adolf Hitler, tinha verdadeiro entusiasmo pela posição nietzschiana a respeito da seleção de uma raça superior. Não por acaso que um de seus presentes ao seu aliado Benito Mussolini tenha sido uma versão de luxo de todas as obras do filósofo; e também fora presenteado pela irmã de Nietzsche, Elisabeth Föester-Nietzsche, com a bengala do filósofo. Em sua obra
A minha luta, Hitler descreve-se como a encarnação do “super-homem” descrito por Nietzsche. Mas muitos concordam em dizer, que Hitler não se empenhou a estudar profundamente o pensamento nietzschiano, mas usava como inspiração para seus soldados, frases soltas retiradas das obras de Nietzsche.
Não existem dados que comprovam o envolvimento pessoal de Nietzsche com o Nazismo. Por outro lado, sua irmã Elizabeth, era simpatizante declarada do movimento nazi-fascista. Foi ela quem tomou conta de seu irmão depois de seu surto psicológico. Depois da morte de Nietzsche, ela descobriu em suas obras um negócio rentável, investindo em versões de bolso das obras do irmão, chegando até a adaptar seus livros para atender a interesses pessoais.
Em um gesto simbólico, Elizabeth presenteou Hitler com a bengala de Nietzsche, como se fosse um gesto de aceitação e de encorajamento para seguir adiante com a idéia do desenvolvimento de uma raça superior, que segundo ela, seu irmão Nietzsche era a favor. E foi seguindo essas adaptações feitas pela irmã do autor, dando um sentido e caráter unilateral de seu pensamento, que Hitler se encantou coma figura do filósofo. Era a idéia de formar no futuro uma raça superior privilegiada, e um restante de pessoas que não seriam nada mais que submissos; que viveriam de acordo com a lei de obediência. Só os mais fortes teriam direito de comandar. Esse direito seria dado ao ser supremo, o super-homem, que não estaria sujeito a nenhum julgamento. Essas idéias encaixavam-se como uma luva para o pensamento de Hitler.
Nietzsche não demorou muito para perceber que o darwinismo social não estava seguindo o que tinha em mente. Nietzsche era explicitamente contra o movimento anti-semita, e repudiava qualquer tipo de racismo, considerando-o uma estupidez. Segundo Nietzsche, a elevação à categoria de “super-homem”, se daria primeiramente com a “morte de Deus”. Claro que Nietzsche não partia do pressuposto da existência de Deus, mas esse Deus citado por Nietzsche, representava todos os valores cristãos, que segundo ele, enfatizavam a fraqueza e a ignorância. Depois da morte de Deus, o homem estaria sem um pilar de sustentação, onde a humanidade passaria então por uma “seleção natural”, que somente sobreviveriam os homens mais fortes, dando lugar a uma nova classe de valores. A religião segundo Nietzsche, era um ponto de controle das mentes mais fracas, que enfatizavam mais ainda a ignorância, e a compaixão, um sentimento para fracos segundo Nietzsche, pois contradizem todas as regras naturais de sobrevivência.
As críticas a Nietzsche, tomando como ponto de partida sua sustentação do Nazismo, partem sempre dos leitores ingênuos. Suas obras são compostas por aforismos, frases que podem ser interpretadas de vários modos quando não estão dentro do seu contexto. Uma leitura completa de uma obra de Nietzsche visa validar seu total repúdio ao movimento anti-semita. Aliás, uma das razões de seu rompimento com um de seus mais íntimos amigos, o compositor Richard Wagner, deve-se ao seu demasiado apoio ao movimento, levando o compositor até, a promover panfletos divulgando a ideologia do movimento. Os aforismos utilizados por Zaratustra (Nietzsche) como o “super-homem” permitiram manipulações do conteúdo do texto assim como os pastores e padres fizeram com a bíblia em beneficio próprio.
Nem mesmo os críticos mais empenhados do pensamento de Nietzsche, usam seu suposto apoio ao Nazismo, e concordam e afirmar que houve sim, evidentemente, uma apropriação feita pelo Nazismo do pensamento nietzschiano.
Nos dias atuais, Nietzsche é um dos filósofos mais lidos e influentes, segundo alguns, ele é um dos responsáveis pela falta de estrutura da sociedade, devido a sua crítica aos valores cristãos. Mas seu pensamento resiste às críticas negativas de seus ideais, por tal fato, seu pensamente influenciou vários filósofos do séc. XX, como Foulcault, Derrida, Sartre, entre outros; e continuará influenciando, e assim como todo rebelde inovador, Nietzsche continuará a ser mal-interpretado e acusado.